SINOPSE
Maggie trabalha em uma livraria e dança à noite no bar “Rabo do Gato”. Enquanto batalha para arrumar sua vida, age de modo ambíguo com a família, sem coragem de assumir que é lésbica. A jornada para romper o jogo de mentiras tem início quando ela se apaixona por Kim e tem que hospedar a mãe recém-divorciada em sua casa.
O JOGO DO SILÊNCIO
O jogo de esconde-esconde de Maggie diante da família não se restinge as suas relações lésbicas. Além de fazer apresentações ousadas na calada da noite do “Rabo do Gato”, Maggie acaba de abandonar a faculdade de direito e diz para a mãe que está em uma situação confortável quando, na verdade, mora de favor na casa da dona da livraria onde trabalha. A livraria, chamada “10%”, tem só um décimo do conceito tradicional de loja de livros, já que o foco do negócio são produtos eróticos.
Quando sua mãe se divorcia e simplesmente comunica que vai morar com a filha (e ainda vai levar o filho mais novo), cria-se uma situação que nos faz antever, sem medo de errar, o desenrolar do roteiro. Para tornar mais óbvio o inevitável confronto com a verdade, Maggie conhece Kim, se apaixona e inicia um mal disfarçado relacionamento com ela. É claro que as hesitações de Maggie diante da mãe acabam complicando o relacionamento, pois Kim quer algo mais do que viver em um jogo de conveniências.
Esta situação é freqüentemente abordada em filmes lésbicos, quase compondo um subgênero que toma o processo de se assumir diante da família como mote para desenvolver uma comédia de erros. E nesta onda vai o filme, fazendo graça com o sufoco de Maggie para apagar os “vestígios lésbicos” de sua vida e tentar contar a verdade para a mãe do modo mais suave possível.
PRECONCEITOS E MUDANÇAS
Um certo pano de fundo de intolerância à homossexualidade é mostrado por meio de todos os pudores que Maggie manifesta, tentando esconder da mãe que é lésbica. Quando tenta abrir o jogo, os limites da mãe em saber da verdade ficam bem claros. É só Maggie dar qualquer indício do assunto que sua mãe se esquiva por completo da conversa.
Gravitando na vizinhança, há o personagem Tony, que parece aceitar bem as namoradas de Maggie mas que, na maior doçura, convida Maggie e Kim a se retirarem de seu bar, para não incomodar a freguesia careta. E todo mundo continua amigo. Há também a censura sofrida por Frances, dona da loja
Enquanto isso, fora dos guetos, a intolerância dá as caras de modo mais agressivo, quando um grupo de nazis começa a encher o saco de maggie. Quando o cerco aperta, amigos e familiares são forçados a se posicionar para protegê-la e acabam revendo seus preconceitos. Como resultado principal, chega ao fim a pendência entre Maggie e sua mãe. É curioso que a relação entre as duas tenha que chegar a um ponto tão crítico para que Maggie, finalmente, se assuma e sua mãe ponha fim a sua epidemia de cegueira. As personagens só tiveram que chegar à beira da morte...
Assim, o roteiro evolui para um desfecho bem dramático, de violência aguda, com direito a explosão e tudo, quase renegando o tom leve e cômico que o filme demonstra quase todo o tempo. Por outro lado, a história vem lembrar que há um certo elo entre todas as formas de preconceito, dos mais violentos aos mais disfarçados, desde aquele que leva pessoas a atirarem bombas contra as outras, até aquele que se esconde por trás da omissão. Como contraposição a este cenário, o filme aposta na mudança e mostra, por meio da história de personagens aparentemente secundários, a formação de casais muito diferentes que experimentam sua felicidade de modos bem singulares.
O título do filme foi inspirado na letra de uma canção de Sarah McLachlan, “Ice Cream”, cujo verso diz “Seu amor é melhor do que chocolate”.
Por Vania
Dezembro 2008.
FONTES:
FICHA TÉCNICA: http://www.imdb.com/title/tt0168987/