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LIVRANDO A CARA


SINOPSE

 

Will (Michelle Krusiec) é filha de imigrantes chineses e trabalha como cirurgiã em Manhattan. Namorando às escondidas a bailarina Vivian (Lynn Chen), Will hesita em assumir o relacionamento diante de uma comunidade repleta de tradições. Em sua difícil jornada de auto-afirmação, irá se surpreender ao descobrir que não é única de sua família a ter de “livrar a cara” diante dos tabus milenares da cultura chinesa.

 

QUEBROU NÃO TEM MAIS JEITO

 

Este é um daqueles filmes que deixa uma sensação leve e esperançosa, ao sugerir uma derrota definitiva de certas tradições que aprisionam as pessoas. A questão já havia sido explorada de modo bem interessante em um filme de Ang Lee, de 1993, “O Banquete de Casamento”, que também mostra um casal gay (de meninos) às voltas com tabus culturais chineses. Como percebemos em ambos os filmes, até nos recantos onde os padrões são aparentemente mais arraigados, os ventos da mudança insistem em soprar.

 

A sugestão nova e interessante trazida por este filme de Alice Wu é a de que estas mudanças podem surpreender até mesmo aqueles que, aparentemente, são os mais transgressores da história. Geralmente os filmes que abordam o universo gay apresentam um personagem quase heróico, lutando contra as imposições da sociedade. Quase todos à volta são defensores das normas. Neste caso ocorre o inverso. Enquanto Will se vira como pode para esconder seu relacionamento lésbico da família, é sua própria mãe quem confronta primeiro as pressões sociais de sua comunidade, mostrando que o diabo não é tão feio quanto parece. Às vezes somos tão domesticados em certos valores sociais que não vemos que alguns caminhos para mudá-los já foram abertos e que seremos beneficiados por esta transformação. Permanecemos, quase sem querer, como seus mais autênticos guardiões.

 

O CASAL

 

As meninas que formam o par central são bem bonitas, cada um ao seu estilo. Já os beijos são castos e a cena de sexo um pouco seca, parecendo faltar a tal química entre as atrizes. O relacionamento entre Will e sua mãe, por exemplo, é bem mais convincente do que entre Will e a namorada. É entre mãe e filha que se dão, sem dúvida, as melhores cenas do filme.

 

Já o relacionamento das meninas não chega a chamar a atenção na história. As duas personagens são muito diferentes entre si, mas os pontos de tensão entre ambas não são explorados no roteiro. Não há a menor indicação de como Will e Vivian irão resolver certas diferenças, como compatibilizarão suas rotinas (uma é funcionária, a outra é dançarina...) e como darão jeito nas coisas que as tornam insatisfeitas. Só vemos que Will é mais uma mulher em um filme lésbico a correr até o aeroporto para impedir que a amada se vá, resolvendo tudo pela magia do amor.

 

SER OU NÃO SER (ACEITO)

 

A diretora Alice Wu disse em entrevista (que está nos extras do DVD), que o filme aborda uma questão delicada, que é a de realizar desejos individuais, tão importantes para nossa própria felicidade, mas sem ter que pagar o preço da exclusão total do grupo. Sua aposta é a de que é possível ter os dois. Na cena final, quando Will e Vivian dançam juntas no salão na frente de todos, muitos não aceitam e vão embora. Outros dizem ‘ainda bem que não é minha filha’ e ficam só por causa da comida. E algumas pessoas realmente não ligam e aceitam. Assim a diretora vê o processo de alimentar o mínimo de autenticidade em relação a seus próprios desejos: você continua incluído no grupo para algumas pessoas, e é excluído por outros.

 

Desta forma a diretora mostrou um espectro bem interessante de comportamentos dentro de uma mesma comunidade. A chamada do filme, não por acaso, é “uma comédia romântica sobre o certo, o errado e tudo que está entre uma coisa e outra”. O avanço de alguns personagens na história chega a surpreender, como mostra a cena em que a mãe de Will pergunta à filha quando ela e a namorada vão ter um bebê, uma provocação ousada demais para a conservadora Will, tão comportada que parece já ter saído adulta da barriga da mãe. O comentário final de dois personagens, ao verem Will e Vivian bailando e se beijando no salão é: “o mundo está ficando difícil de prever”. E o outro emenda: “E isso só vai ficando pior”.

 

NA SUA ALDEIA E NO RESTO DO MUNDO

 

Outro mérito do filme é o de fazer com que uma história aparentemente tão singular, de uma lésbica asiática vivendo nos EUA, em tantos momentos pareça universal. O título “Saving Face” refere-se às profissões de mãe e filha no filme (a primeira trabalha com maquiagens e a outra faz cirurgias faciais), e também à questão central do roteiro: o quanto você se disfarça para se apresentar ao mundo e como estas máscaras têm que ser retiradas para que se possa viver como se é realmente. Will não quer compromisso, nem quer assumir seu relacionamento diante da família, mantendo com sua mãe o clássico jogo do silêncio, aquele em que todo mundo sabe que todo mundo sabe, mas ninguém diz nada.

 

A mãe de Will, entretanto, também guarda em segredo um comportamento socialmente reprovado, indicando o peso da cultura na vida das pessoas, impondo máscaras e disfarces. Vemos que Will, por exemplo, gosta da namorada, mas não quer assumir nem mesmo que a ama. Deixa-a partir, quando esta ganha uma oportunidade de trabalho em outra cidade, sem nem discutir a possibilidade de manter o relacionamento. A namorada passa o filme todo pedindo um beijo em público, mas Will está muito condicionada às tradições familiares e não esboça muitos movimentos para enfrentá-las. Como disse a diretora do filme, as amarras sociais que comprometem nossos desejos são uma questão comum a todas as culturas, razão pela qual o filme pôde ser compreendido por diferentes audiências.

 

O ritmo do filme também é um pouco diferente do que estamos acostumados. Leva um certo tempo até você pegar o clima da situação e se envolver com as personagens. A narrativa mantém um tom sempre equilibrado, mesmo nas passagens mais pesadas, que abordam a morte e os conflitos pessoais mais agudos. Do mesmo modo, há uma certa graça em algumas cenas, mas nada que nos faça gargalhar, e sim sorrir observando as contradições e irracionalidades da vida em sociedade. O filme não é trágico, nem cômico. Nem preto, nem cor-de-rosa, mas um pouco acinzentado, como a diretora parece ver o cotidiano da vida.


Vania - Setembro/2007



FONTES:

FICHA TÉCNICA:
http://www.imdb.com/title/tt0384504/

ENTREVISTA COM LYNN CHEN:
http://movies.about.com/od/savingface/a/savinglc052505.htm

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